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Casarão do Vinil guarda discos históricos da Seleção Brasileira, na Mooca

  • há 2 dias
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Maior parte do acervo celebra as conquistas de 1958, 1962 e 1970, com peças raras disponíveis para consulta na Copa do Mundo de 2026


Casarão do Vinil guarda discos históricos da Seleção Brasileira, na Mooca

Ainda garoto, nos anos 1960, o santista Manoel Jorge Dias ia sempre que podia até a Rua Javari, na Mooca, ver Pelé em campo, quando o Santos jogava por ali. Não chegou a tempo de ver o gol que o próprio Pelé considerou o mais bonito da carreira — marcado em 1959, contra o Juventus —, mas acompanhou de perto outras atuações marcantes do Rei do Futebol.

Décadas depois, a poucos metros daquele mesmo campo, na Rua dos Trilhos, Manoel se tornaria guardião de uma parte importante dessa memória. Ele é o idealizador do Casarão do Vinil, a maior loja do gênero na América Latina, com mais de 1 milhão de discos no acervo. Conhecido como "Manézinho da Implosão" por seu outro trabalho — implodindo pontes e prédios pelo Brasil, incluindo marcos como o Carandiru e o antigo estádio da Fonte Nova, em Salvador —, no Casarão a lógica é o oposto: ali, o que importa é preservar.

Um reduto de memória sonora O espaço reúne LPs históricos sobre a Seleção Brasileira, abertos à consulta do público durante a Copa do Mundo de 2026. A maior parte do acervo é dedicada às conquistas de 1958, 1962 e 1970, com gravações de áudio levemente chiado, mas perfeitamente compreensível, e tom épico e nostálgico.

Entre os destaques está "Brasil Bicampeão do Mundo", disco da gravadora Odeon que documenta a campanha vitoriosa no Mundial do Chile, em 1962. A contracapa do disco descreve, em tom grandiloquente, a emoção de reviver aquele título. Ao tocar o vinil, é possível ouvir as transmissões do locutor carioca Oduvaldo Cozzi, da Rádio Guanabara, narrando o único gol de Pelé naquela Copa — contra o México —, antes de o craque se lesionar no jogo seguinte e assistir de fora à conquista do título por Amarildo, Garrincha e companhia.


Para Manoel, o vinil carrega um valor que vai além da música. "Todas as atividades humanas estão presentes no vinil. É um objeto representativo de todas as manifestações da civilização moderna", afirma. Segundo ele, essas relíquias conectam quem ouve com uma época em que o país inteiro torcia pelos primeiros títulos mundiais do Brasil — e o interesse não deveria ficar restrito a quem viveu aquele período. "Há todo um simbolismo que traz à tona essa memória afetiva dos brasileiros que vivenciaram aquele período, mas também quero que os jovens se interessem por isso."


Ecos da Copa de 1970 Outros dois discos do acervo, "Tri Campeão Brasil" (Copacabana) e "Brasil Tri-Campeão do Mundo" (Philips), resgatam a campanha vitoriosa da Seleção no México, em 1970. As faixas preservam narrações de nomes históricos do rádio esportivo brasileiro — entre eles Doalcei Bueno de Camargo, Haroldo Fernandes, Antônio Porto, Joseval Peixoto, Pedro Luiz e Fiori Gigliotti —, registradas por emissoras como Bandeirantes, Jovem Pan, Nacional e Super Rádio Tupi, que na época revezavam a transmissão dos jogos em um sistema de cooperação entre si.

Uma das gravações apresenta, em tom solene, a escalação que goleou a Itália por 4 a 1 na final daquela Copa, sob o comando de Zagallo. O contexto político da época também aparece nesses registros: a contracapa de um dos álbuns traz uma foto da delegação tricampeã ao lado do presidente Emílio Garrastazu Médici, associando a conquista esportiva ao discurso nacionalista da ditadura militar. O disco também traz a canção "Pra Frente Brasil", composta por Miguel Gustavo, que embalou aquela campanha.


Discos à venda? Nem pensar Apesar de alguns desses exemplares chegarem a ser vendidos por mais de R$ 1 mil pela internet, Manoel garante que os seus não estão à venda. "Se eu colocar um preço, um gringo vem e compra logo. O Brasil é muito admirado lá fora", explica — preferindo manter o material circulando na vitrola da loja do que perdido em alguma coleção no exterior.

 

Fonte: Estadão


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